ProcuraMed entrevista o Dr. André Báfica

No mês passado a ProcuraMed divulgou a notícia do prêmio ganho pelo médico e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), André Luiz Barbosa Báfica. Ele foi o único brasileiro selecionado para receber o prêmio International Early Career Scientist (IECS), do Howard Hughes Medical Institute (HHMI).

ProcuraMed entrevista o médico André Báfica

Hoje trazemos uma entrevista exclusiva conferida por Báfica à ProcuraMed. Nela o médico expõe o porquê de sua escolha em estudar Tuberculose e a importância de sua pesquisa. Explica, ainda, seus motivos na escolha dos EUA para realizar o pós-doc e o que o motivou para regressar ao Brasil. Por último, nos diz quais são seus objetivos a longo prazo. Entre e confira essa imperdível entrevista.

Entrevista cedida a Fidel Queiroz (Editor de conteúdo da Procuramed)

– Por que você escolheu estudar sobre a Tuberculose? E como considera que sua pesquisa seja importante.

Sempre fui curioso para saber o que acontece no íntimo de uma célula com um organismo infectante. Isso virou uma perseguição óbvia em minha vida acadêmica desde o segundo ano do curso de medicina. Estudei vários microorganismos: Leishmania, Trypanosoma, HIV, e finalmente Mycobacterium. A tuberculose é uma problema ainda grave de saúde pública. Entretanto, dos que são infectados apenas 5-10% desenvolvem doença ativa. De uma certa forma, podemos imaginar que esse bacilo desenvolveu estratégias de sobrevivência de sucesso, já que o sistema imune humano monta uma poderosa resposta em momentos de infecção e, até onde sabemos, não é possível eliminar o bacilo do tecido. Isso tem deixado os cientistas que estudam este bacilo intrigados por muito tempo. Entretanto, precisa de comprometimento muitas vezes sobre-humano pois é muito árduo trabalhar nos modelos experimentais com esse microorganismo. Mas eu considero gratificante, pois podemos encontrar a chave para criar métodos eficazes de tratamento e prevenção.

Sobre a importância da pesquisa, essa é uma pergunta interessante e darei um exemplo simples para responder o que penso: quando o matemático Pitágoras propunha o seu conhecido teorema, ele imaginou que pontes fantásticas ou túneis magnifícos nos dias de hoje fossem construídos utilizando parte desse conhecimento básico? Assim caminha a ciência básica e o que fazemos no nosso laboratório é imunologia básica, sem uma aplicação imediata ou mesmo óbvia. Acredito que a ciência é um patrimônio da humanidade e tento fazer meu papel em manter esse patrimônio, ou seja, o conhecimento científico de nossa sociedade. Por isso, considero qualquer pesquisa básica importante. Em nosso laboratório, o lema é fazer ciência pela ciência, com muito cuidado para não ludibriar (usando verba pública) a sociedade com afirmações de que vamos curar doença a, b ou c.

– Por que você foi fazer o pós-doc nos EUA, e depois regressou ao Brasil?

Decidi fazer o pós-doc nos EUA pois surgiu uma vaga num dos melhores laboratório do mundo, supervisionado pelo Dr. Alan Sher, na área de interação de patógenos intracelulares com o hospedeiro. Lá pude testar minhas idéias com liberdade pois o financiamento no National Institutes of Health era extraordinário. Depois de 5 anos, fui contrato como fellow cientista do governo americano, mas decidi voltar pois meus ideais de servir ao público no Brasil eram mais fortes. Acho que tenho um forte espírito público. Depois disso, tenho trabalhado intensamente para atrair outros cientistas novos para o retorno. É um processo árduo, pois competir com outros países por bons cientistas é desanimador. Temos regras enferrujadas e, muitas vezes, mentalidade tacanha em contratações de professores, pesquisadores, etc. Isso é matéria para uma outra entrevista (risos).

Quais são seus objetivos a longo prazo?

A longo prazo eu gostaria de atrair recursos para construir um centro de pesquisa básica e clínica em doenças infecciosas na UFSC, para atender todo o Estado. Acho que para avançarmos no diagnóstico e prevenção doenças infecciosas como a tuberculose, precisamos estudar bem o que acontece nos humanos infectados, mas sem doença (ex.: contactantes). Ai está a chave do porque existe um controle dos microorganismos.

Outro objetivo é a criação de uma pós-graduação em Imunologia no Sul do país. Precisamos de formação sólida para os indíviduos nessa disciplina pois podem atuar em diversas áreas além da acadêmica.

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